Arquivo do mês: março 2011

Uma história feita de pedaços de história

Era uma vez uma menina. O mundo era novo, inexplorado, deslumbrante. Todo momento era raro, uma oportunidade única de provar cheiros, sabores, sons, luzes e cores. Mal não havia, nem dor ou saudade – somente a expectativa de um futuro brilhante.

Cercada de sorrisos, presentes e livros, essa menina cresceu, acreditando na verdade, no bem, na pureza de espírito, na beleza das coincidências e no amor. O mal veio. Não ficou. Cada obstáculo era superado com a ajuda de muitas mãos – mãos sempre macias, apesar de firmes.

O mundo chamou. Ela foi. Não era mais uma menina, mas permanecia acreditando. O mal veio novamente. Longe das mãos que a acolhiam, ela precisou de mais força, mais tempo, mais coragem. Foi chocante perceber que o mundo não era o conto de fadas no qual ela vivera até então. Outros sentimentos tiveram sua vez na vida dessa menina: medo, dúvida, saudade.

Ah, a saudade… Não é preciso muito para ser arrebatado por ela. Mas nas noites de chuva e solidão, aquela menina perdia a conta das lágrimas que saíam para aliviar o peito de tanta saudade. E, por mais que resistisse, a meninice foi ficando para trás enquanto o coração endurecia, tentando não se transformar numa fonte interminável de amor que não tinha como chegar ao seu destino.

Tolice. Nenhuma inocência deve ser perdida para sempre e a menina sabia disso. Aqueles cheiros, aquelas músicas, aqueles sabores, que há tanto tempo lhe eram familiares, teimavam em aparecer no meio de um dia difícil… E inundavam-lhe o coração de calor, de leveza, de saudade.

“Não é justo”, pensava a menina. Ela detestava estar longe, apesar de saber que era necessário naquele momento. Mas o tempo passou. E transformou a distância em uma mera questão de um pouco mais de tempo. Como nos contos de fada, depois de muitos desencontros, aquela menina finalmente viu uma estrada reta, florida e próspera, que chegava exatamente onde ela desejava.

Uma Luz foi o que lhe fez ver tudo isso. Num piscar de olhos, todas aquelas mãos estavam próximas novamente. Todas as expectativas agora eram planos. E ela nunca poderia esperar que um momento tão cheio de caos fosse o exato instante que a levaria de volta à paz.

A noite já não é sinônimo de lágrimas. Serenamente, já de olhos fechados, a menina espera o sono quando recebe uma visita inesperada. Dessa vez, ela será breve. Quase adormecida, ela sorri para a saudade:

– Bem-vinda.

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