Arquivo do mês: junho 2011

Círculo virtuoso*

Aquela menina acordou em paz.

What do you really see...?Estava frio só lá fora. Dentro do quarto, era seu coração que transbordava calor pra todos os cantos. Abriu a janela e fechou novamente os olhos para receber o Sol – e ele ficou mais quente com o sorriso da menina. Colocou, baixinho, uma música de despertar e deixou o ar fresco da manhã lhe arrepiar a pele. Viver pela metade não tem graça.

Não interessava que dia da semana era, ou quais eram os compromissos da agenda. Qualquer coisa que fosse, ela faria com disposição. O mundo era um eterno domingo à tarde, com todas as possibilidades ainda abertas pela frente. Bastava escolher.

Naquele dia, ela questionou a cisma das pessoas e decidiu que não havia mal nenhum no outono ou na segunda-feira. Que inventassem outros motivos para reclamar, pois os que já existiam ela havia descartado. Nada pode entristecer uma mente plena.

Plenitude… Essa palavra rondava os pensamentos da menina há algumas semanas, ela sem entender o porquê. Não foi preciso muito tempo. Como uma cortina que se abre, os motivos apareceram um a um, num desfile de escola de samba na avenida da alma, trazendo alegrias perenes e levando dúvidas embora, estampando em estandartes os sentimentos que, convenhamos, eram bonitos demais para se deixarem esconder.

Foi assim, naturalmente. Nada mais a distraía. Era tudo muito certo, muito inteiro, muito pronto.

E aquela menina dormiu em paz…

*Gu, obrigada pela inspiração do título. =o)
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Arquivado em histórias, rotina

Vida simples

Um fogão à lenha, bolão de fubá cozinhando devagar sobre a chapa, a porta aberta deixa entrar o vento gelado da serra, a cerveja não é suficiente para deixar frio o ambiente cheio do calor humano de pessoas que se reconhecem e trazem para aquele momento todo amor do mundo.

Em volta de uma mesa que tem arroz, feijão e pururuca, nada mais importa: estamos reunidos em nome de algo que não tem tradução, mas o mundo chama de Família. A minha é assim, com F maiúsculo. Por todos que a formam, sinto um amor que nasceu comigo e deve ser genético e contagioso, pois até quem veio depois se apaixonou pelo que somos juntos e somou qualidades. Optamos por ficarmos juntos sempre que possível, estreitando laços, aceitando pontos de vista e criando esta relação sincera, na qual podemos ser melhores por estar ao lado de quem se ama.

Minhas experiências mais ricas vivi ali, no meio de pessoas que me acompanharam por estradas de chão batido, em aventuras madrugadeiras de pic nic no balanço, quando a relva ainda estava coberta com o branco da geada da noite mais fria do ano.

Ali, naquela cidade sem internet ou sinal de celular da minha infância, dividi meus momentos de festa como a solitude plena de uma tarde sentada à beira da cachoeira. Chorei manso por amores jovens, enquanto a paisagem já conhecida de cor ia rápido na janela do carro que viajava pra lá ou pra cá. E, depois, descobri em pistas singelas que a dor não era eterna, pois quem pode ignorar um passarinho que voa bravamente contra o vento? quem não sorri ao ver a lua nascendo na campina? quem passa ileso pela sutileza de um Ypê florindo em setembro? quem ouve os primeiros acordes de uma viola caipira sem sentir o coração aquecer?

Não eu. Cada pedaço de mim sossega e se expande ao mesmo tempo quando flagra esses inocentes sinais de que aprendi a lição mais valiosa que me foi ensinada por meus pais, meus avós, minha irmã, primos-irmãos e tios-quase-pais: a simplicidade.

O que tem valor de verdade nessa vida não é medido em cifras: pode ser encontrado facilmente em uma noite estrelada, numa taperinha sem energia elétrica, onde a única ostentação é a da própria Vida, mostrando que temos tudo quando podemos contar com sorrisos sinceros, relações puras, histórias que não se perdem na memória.

O amor nasce ali. Bem ali, na simplicidade de um céu bonito, de um violão de acalanto, do som da água seguindo seu caminho. Quem precisa de mais, precisa de tudo…

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