Arquivo do mês: setembro 2011

Na beirada

Hoje quero falar sobre respeito. Ou a falta dele, pra especificar melhor. Talvez eu esteja mais exposta – afinal, pelo menos 3 vezes por semana passo agora alguns bons minutos em cima da bike, com os cabelos ao vento e as pernas à vista. Ou pode ser que a idade esteja me tornando mais intolerante mesmo. O suficiente para dar voz a toda revolta que me acompanha há tempos.

Sempre me incomodou muito não conseguir determinar o ponto em que os homens se viram no direito de acuar uma mulher simplesmente pelo fato de ela existir ali. No meu mundo, isso nunca teve o menor cabimento.

Na minha família de três mulheres, meu pai foi o pilar sobre o qual construímos nossa personalidade. Em todos os momentos da minha vida, ele nos apoiou, deu-nos palavras de incentivo, acreditou em nosso potencial, proporcionou todas as ferramentas para que fizéssemos crescer nossas ambições e aplaudiu nossas conquistas. Um herói humilde, sorridente, carinhoso e cheio daquela razão que só os justos possuem.

Minha mãe não fez por menos: serviu de exemplo de força, de luta, de perseverança e de austeridade. Mostrou direitinho que nosso papel no mundo era grande, mas que precisaríamos nos esforçar para alcançá-lo e, depois, mantê-lo. Foi, ainda é, a referência inabalável de que a vida pode ser muito boa se seguirmos pelo caminho certo, mesmo que não seja o mais fácil na maioria das vezes. Tudo isso sem deixar de nos acordar, a mim e à minha irmã, com um copo de leite morno com chocolate.

Então, não. Não aceito, não concordo e não me submeto à falta de respeito. Sou uma mulher que segue todos os dias da casa para o trabalho, de um trabalho para o outro, e de lá volta satisfeita, apesar do cansaço, e não tolero mais a falta de educação, de hombridade, do mínimo de noção que seja, em parece que a maioria dos homens do mundo.

Tenho um recado a todos esses homens.

Eu e todas as mulheres do mundo somos suas namoradas, amigas, irmãs, mães, avós, tias e primas. Cada uma das mulheres importantes em sua vida. Não faça com que precisemos sentir medo de viver nossa liberdade nem com que precisemos nos esconder. Admire nossa beleza sem ser rude, sem parecer um animal idiota que não enxerga o valor da dignidade nem se ela fizer acampamento na porta da sua casa. Seja capaz de cumprimentar essa mulher que passa com um sorriso no olhar, não com olhos de gula. Não ultrapasse a tênue linha que separa o seu direito de falar do meu direito de não escutar. Expresse-se com um mínimo de amor… E deixe que sejamos em paz.

 

“A inteligência sem amor te faz perverso
A vida sem amor…não tem sentido”. (Autor indefinido)

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Arquivado em infância, pensamentos, rotina

Free your soul.

Nascemos livres. Dura questão de segundos. Depois disso, uma sucessão interminável de amarras toma conta de nossos pensamentos, desejos e sonhos. Cada um sabe o vento mais forte que lhe desvia o curso e como às vezes é impossível aguentar firme. Cada um tem a inigualável missão de aceitar novos caminhos, tenham eles as curvas ou percalços que tiverem. Compreender a marcha, tocar em frente, assim como canta o grande poeta violeiro Almir Sater.

Em alguma hora, cansa. Cansa estar o tempo todo vigilante, alerta, apressado pelos horários e compromissos, cobrar, entregar no prazo. E, em algum momento, fiz-me inconformada, fiz-me insuportavelmente positiva. E desafiei o cansaço, a ditadura do meu próprio medo de ser um pouco mais livre. Questionei: afinal, há modos de simplesmente ser, nesse mundo babilônico onde todos sabem o que é correto, mas fingem não saber quando é conveniente, no qual os tons de cinza apenas servem à quem dita o que é branco e o que é preto?

Eu encontrei a minha liberdade em meio a tanta injustiça. Sobre meus próprios pés, percebi que podia ir mais rápido que meu pensamento e finalmente esvaziar as ideias durante aqueles minutos de corrida. O tempo passou e eu quis ir mais longe. Acasos e pessoas especiais me guiaram à plenitude da minha vida livre de muito do que me fazia mal. E , no Dia Mundial Sem Carro, consigo a inspiração para contar, nessas linhas, que hoje eu levo minha liberdade para passear de bicicleta.

Ela vai de mãos dadas com a minha felicidade. Inabaláveis, as duas seguem sem se importar com caras feias, gente rancorosa e narizes torcidos. Sobre as duas rodas desse objeto que poderia muito bem ser, de tanto que inspira sentimentos, tudo isso fica no mais rebaixado plano, sobreposto pelos sorrisos das crianças que apontam e desejam estar ali, pela serotonina, pelo vento no rosto, pelo bem-estar, pela certeza pessoal de que aquela escolha muda muito no mundo, pelo prazer de ir e voltar sem estresse, pela música que acompanha baixinho, pelos cheiros e as cores antes despercebidos, pela extrema, genuína, incrível sensação de ser livre.

É claro que a liberdade não exclui os problemas e vivo pedalando por aí preocupada com ônibus tirando fina e motoristas egoisticamente apressados (dos quais, não muito tempo atrás, já fiz parte). Mas pedalo com um sorriso no rosto e uma certeza na mente:  minha bicicleta, minha Magrela, que se encaixou tão bem na minha rotina de dois empregos e meia hora de almoço, me faz economizar com gasolina, academia e rugas,  essa maravilha do design em prol da mobilidade me abriu caminhos maravilhosos, cujos trajetos descubro com muita vontade e energia, sem me importar muito com o que tem no fim da estrada. Em cima da bike, o destino é a própria viagem.

Pedalo porque quero. Porque gosto. Porque curto. E também porque preciso, afinal, todo amor necessita cuidados. Torço para que cada um consiga descobrir na vida o que lhe libertará a mente. Passamos tanto tempo buscando a felicidade que nos esquecemos de percebê-la logo aqui, do lado da gente. No meu caso, ela está também sobre duas rodas.

#vádebike

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