Em queda livre

Pensas que me conhece… mal sabe o que vai em meu fone de ouvido, que dirá o que se passa em meu coração. Hoje, ele aperta. Não adianta fechar os olhos – o que machuca está gravado profundamente na alma, livre de qualquer censura que possa fazer um tirano. Mas ah, como seria bom se os pensamentos e as sensações obedecessem a um dedo apontado gritando ordens.

Acontece que não.

Antes que seja possível perceber, parte do que amamos em nós mesmos vai embora, perde o sentido, fica feio e triste.

Mas deixar a dor pra lá só vai tornar o sofrimento pior quando não houver mais maneiras de escapar dele. Então, é melhor que doa, que aperte de verdade, e que ao mesmo tempo encontre-se formas de perdoar, mesmo que ninguém esteja arrependido.  De levantar sempre uma vez mais após a queda. Sem jamais perder a esperança de que opor-se à dor e lutar será válido. Sem renegar a si mesmo, como já alertou o poeta.


E às vezes, a queda é longa até se encontrar exatamente o solo firme onde se quer ficar, criar raízes, receber ali a água da chuva e ver florescer, crescer frutos, trocar as folhas quando a época chegar. Não importa. A chance de se segurar já passou. Em queda livre, não há outra opção além de aproveitar a adrenalina, enquanto almejamos chegar finalmente em terra…

Muitas vezes, é esse o choque que falta pra fazer-nos lembrar quem é, de onde veio e quem nos acompanha. E por que não, é esse o choque que falta instantes antes da descoberta reveladora de para onde se quer ir.

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