Arquivo do autor:Bianca Camargo

Sobre Bianca Camargo

Quando 2013 começou, decidi que teria um novo desafio: combinar treino e dieta para adequar meu corpo à categoria Bikini Fitness da IFBB. Aqui, você encontra um pouco sobre a minha vida de aspirante à atleta e as minhas descobertas sobre meu corpo, sobre opções saudáveis e sobre treinamento que forem sendo feitas no caminho. Bem-vindo ao meu intenso mundo!

Conto de natal

bola

É uma noite quente de dezembro e uma linda menina está sentada em sua cômoda arranhando o lápis num papel de carta escolhido a dedo para aquela ocasião. Escrevia seus pedidos ao bom velhinho e tinha acabado de colocar o ponto final quando se virou para a janela bem a tempo de ver uma estrela cadente riscar o céu.

Seus olhinhos brilharam com a possibilidade de ter todos aqueles desejos realizados. Não era isso que significava presenciar um evento tão sublime do universo? Segurou sua cartinha com esperança e colocou dentro da meia que os pais haviam separado. Foi dormir com um sorriso no rosto e teve um sonho incrível naquela noite.

No sonho, seu dia de Natal era tudo o que ela poderia querer. Usava seu vestido predileto e tinha os pés descalços, sentindo a terra molhada e o toque da grama daquele lugar que lhe era tão precioso, o paraíso particular para onde sempre corria quando precisava de paz. Ouvia o canto dos pássaros se misturar às vozes das pessoas que mais amava e um coral de risadas era a música que preenchia seu mundo.

Reconhecia em cada rosto a vontade imensa de estar exatamente ali e a alegria de poder engrossar aquele caldo de pessoas de bem. Em seu sonho, no qual tudo era possível, não faltou um sorriso sequer. Abraçou mais forte aqueles que já não podia ver quando estava acordada e aproveitou para matar a saudade, que sempre aumentava nos dias de Natal.

Chorou de felicidade, molhando as flores com suas lágrimas puras, e viu seu mundo imaginário ganhar ainda mais cor. Correu com outras crianças e sujou a roupa, como tinha que ser. Mas na hora da oração, fechou os olhos e silenciou, segurando as mãos daquelas pessoas que faziam dela mais segura, mais inteira, mais menina e cada dia melhor.

Acordou com o beijo da mãe e o carinho do pai, como acontecia todos os dias, mas em vez do bom dia usual, a menina foi logo perguntando:

– Falta muito pro Natal?

 

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Faxina na casa e na mente

Um sábado sem compromisso tem sido raridade na vida desta escritora que ama rotina. Por isso, ao acordar e me ver sozinha em casa, resolvi fazer minha faxina anual. Esse sim, um ritual seguido desde a infância, que consiste em abrir portas e gavetas e dar fim a tudo aquilo que já não tem utilidade.
Normalmente, sigo um padrão simples: está no mesmo lugar a um ano, é porque não faz mais parte do meu dia a dia, portanto, é desnecessário. É claro que há exceções, mas tento não ser muito complacente com minha própria vontade de continuar acumulando.
É bom para organizar também – hoje mesmo eu guardei no maleiro do armário uma porção de roupas de inverno que não serão requisitadas por muitos meses, já que o Brasil por si é um país tropical e a cidade onde moro é especialmente quente. Sobrou-me muito espaço para novas aquisições e, por enquanto, deixou o armário mais agradável.
Contudo, a minha principal preocupação com essa faxina é muito menos aparente. Com a sujeira e o lixo, vão embora muitos fantasmas… Resquícios do passado que acabaram ficando guardados no fundo daquela gaveta que você quase não mexe, mas vez em quando abre distraidamente para guardar algo que não cabe mais na estante, mas que você ainda não está pronto para descartar.
Enquanto limpava e separava o que ia ou ficava, foi inevitável questionar o que tanto nos faz agarrar por tanto tempo algo que não faz mais sentido. Vivemos na expectativa de novas conquistas e tempos melhores, mas não deixamos o espaço necessário para que isso possa acontecer. Em cada uma dessas faxinas, encontrei algum item que já poderia ter ido embora há muitos anos, mas ainda estava ali, firme, sobrevivendo… E eu sei que isso só acontece por que algo quase escondido num canto escuro das minhas lembranças se recusa a deixar aquela fase passar.
De alguma maneira, certos objetos significam muito para nós, carregam parte de nossa história. Libertar-se de algo que nos marcou, mas passou, e seguir em frente é difícil demais… porém, toda vez que faço essa faxina repito que é totalmente necessário. Como uma criança que larga a chupeta, cada um de nos precisa soltar alguns nós todos os dias para continuar andando adiante.
Apego, desapego… Um ciclo tão duro para um ser humano que chega a chocar. E no final do meu dia de hoje, uma frase que pensei durante minha caminhada matinal encerra perfeitamente a questão: aproveite a sua vida e cuide do seu corpo, pois não há uma sem o outro e, sem ele, temos nada.

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Em queda livre

Pensas que me conhece… mal sabe o que vai em meu fone de ouvido, que dirá o que se passa em meu coração. Hoje, ele aperta. Não adianta fechar os olhos – o que machuca está gravado profundamente na alma, livre de qualquer censura que possa fazer um tirano. Mas ah, como seria bom se os pensamentos e as sensações obedecessem a um dedo apontado gritando ordens.

Acontece que não.

Antes que seja possível perceber, parte do que amamos em nós mesmos vai embora, perde o sentido, fica feio e triste.

Mas deixar a dor pra lá só vai tornar o sofrimento pior quando não houver mais maneiras de escapar dele. Então, é melhor que doa, que aperte de verdade, e que ao mesmo tempo encontre-se formas de perdoar, mesmo que ninguém esteja arrependido.  De levantar sempre uma vez mais após a queda. Sem jamais perder a esperança de que opor-se à dor e lutar será válido. Sem renegar a si mesmo, como já alertou o poeta.


E às vezes, a queda é longa até se encontrar exatamente o solo firme onde se quer ficar, criar raízes, receber ali a água da chuva e ver florescer, crescer frutos, trocar as folhas quando a época chegar. Não importa. A chance de se segurar já passou. Em queda livre, não há outra opção além de aproveitar a adrenalina, enquanto almejamos chegar finalmente em terra…

Muitas vezes, é esse o choque que falta pra fazer-nos lembrar quem é, de onde veio e quem nos acompanha. E por que não, é esse o choque que falta instantes antes da descoberta reveladora de para onde se quer ir.

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Eternamente em construção

Não foi uma noite tranquila. Sonhos e frases prontas a acordaram muitas vezes durante o sono e, quando finalmente já era dia, a menina desistiu de dormir e resolveu encarar de uma vez todos os pensamentos que lhe assombravam.

E foi de repente que ali, no meio do viver cotidiano, a consciência de todos os anos a atingiu. Não eram muitos, mas assim, como um véu que é retirado, eles fizeram muita diferença. E a menina se perguntou como ficou tão madura e começou a entender as nuances da vida, a lidar com as frustrações como quem não tem medo, a dar conselhos dignos de vó.

Ela achou esse um conhecimento complicado de se ter. Doeu um pouco olhar pra própria vida com senso crítico e perceber os erros, mas valeu a pena quando ela constatou que os acertos foram mais significativos e que todas as experiências, boas e ruins, foram extremamente necessárias pra formar aquela menina que havia se tornado. Uma menina que ainda brincava de boneca quando encontrava tempo, sem jamais esquecer da real beleza da vida.

♫ Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração…

Decisões são difíceis e parece que não tem jeito, a vida inteira elas vão aparecer em momentos dos menos oportunos, então ela resolveu fazer isso pelo menos do jeito mais digno, de cabeça erguida, peito aberto e as mãos segurando de um lado a coragem, do outro a proteção dos anjos.

E, quando tudo voltou a se encaixar de novo, ela percebeu que não adianta tentar parar as estações do ano, as marés, as horas que passam, o dia que chega. O mundo vai continuar girando e a única saída é acertar o passo com ele e com Deus. Depois disso, não há tempestade que dure mais que o necessário para fazer a menina lembrar de como gosta dos dias de sol.

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Desequilíbrio

Acredito na sorte. Tenho uma filosofia sobre ela: penso que momentos de fortuna são a maneira de o universo nos mostrar que estamos no caminho certo. Na maioria dos dias, no entanto, tudo acontece dentro da normalidade. Nem muito, nem pouco. A rotina do mediano, tão rejeitada em literaturas, poemas e folhetins, é, no fim das contas, a paz tão almejada todos os dias. Afinal, se a sorte existe – e deixa os dias mais bonitos-, então a balança de energia que rege essa dimensão precisa de um contraponto: o azar.

Como bem e mal, deus e diabo, começo e fim, amor e ódio, também são a sorte e o azar:  dicotomias tolas e triviais, as quais passamos a vida evitando, dando um jeito de contornar. Abrimos tons de cinza para deixar o respirar mais fácil. Acontece que, apesar de tons de cinza funcionarem, eles só comprovam a existência dos extremos preto e branco.

Esse turbilhão de sensações e sentimentos provocado pela extremidade causa fenômenos interessantes. Arroubos de fé, ou descrença. Paixões, rupturas. Riso, desespero. Uma clareza cercada de um instinto quase esmagador, de tão automáticos que nos deixa. E esse momento carregado de adrenalina e explicações orgânicas na verdade é o marco que faz tudo ser questionado. Esse instante de quebra da continuidade nos muda completamente.

E se a sorte, mesmo causando inveja, gera uma vontade incrível de exclamar as boas novas, o azar tem um poder de fazer com que conceitos sejam revistos no silêncio de nossas orações, reflexões, meditações. Pois, de acordo com a minha filosofia, o revés só pode ser sinal de que algo não está lá muito certo.

O comodismo, a aceitação, o conformismo com que tratamos nossa condição todos os dias. O nosso desânimo, a desonestidade, a gentileza em falta no mercado.  Que seja a vida valendo tão pouco em estádios, ruas, escolas, lares. Esse mundo-cão o qual não conseguimos tirar a bunda da cadeira para mudar. Em vez de acertar as contas com a própria consciência e começar imediatamente a ser melhor,  é mais fácil acreditar que as causas de nossas consequências estão mesmo nesse âmbito distante de nossas atitudes.

Dessa vez, não.

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Same changes

Crescer não é fácil. Quando achávamos que o pior havia passado, vem uma nova onda de frio na barriga, borboletas descontroladas, pressões e mudanças.

Afinal, quando se tem 18 anos, mudar de cidade de mala, cuia e coragem nas costas é aterrorizante. Mas chegamos ao nosso destino cheios de esperança e admiração, prontos para aceitar de bom grado as pessoas incríveis que encontramos no caminho e lutar bravamente conta os amores tóxicos que despedaçam nossos corações. Enfrentamos todos esses monstros com a maior dignidade e cruzamos esse vale de dualismos que é a transição entre a adolescência e a vida de gente grande.

Aí, na hora que finalmente nos permitimos respirar fundo, limpamos a poeira de tantas batalhas esperando que tempos mais tranquilos estejam por vir, vem o verdadeiro baque. As contas não vêm mais no nome de nossos pais, a faxina da casa ou nós mesmos fazemos ou fica tudo sujo, seu chefe ou seus clientes não vão aceitar desculpas do tipo “meu cachorro comeu seu projeto” e se resolvemos ficar na cama num dia de preguiça, adeus emprego.

E isso é só o aperitivo… Logo nos acostumamos e viramos os donos da situação. Mas só porque estávamos escaldados de joguinhos e amores malresolvidos, muito preocupados com nossas recém-começadas carreiras para sequer pensar em um envolvimento amoroso, BAM! A pessoa mais perfeita do mundo aparece do nada no seu caminho (ah, Lisbela, não é mesmo engraçado que o amor da nossa vida apareça justamente na nossa vida?!). Viagem para o exterior, cursos de especialização, doutorado em outro país e outros planos superpessoais começam a conviver com viagens românticas, jantares a dois, famílias, alianças, casa, filhos… E percebemos que faltava mesmo essa parte.

Porque se crescer não é fácil, imagine crescer sozinho…? Não dá. São decisões demais, responsabilidades demais, mudanças demais, alegrias demais! Algumas delas vêm só porque duas vidas se entrelaçaram sem jeito de desembaralhar, mas e daí? Quando encontramos esse tipo de companheirismo, qualquer consequência fica mais leve.

Que julguem aqueles que nunca se depararam com um amor assim. “Esse amor vai mudar você”, dizem… E sempre devolvi a sentença: o que é que não me muda? À velha máxima “a única certeza da vida é a morte”, eu acrescento hoje que não, temos outra certeza além dessa: a mudança.

As borboletas no meu estômago que o digam: “que seja sempre para muito melhor”… ;o)

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Soltando amarras

Ligar o shuffle no player pode ser uma armadilha de lembranças e saudade fora de hora. Ah, longe de mim querer apagar certos momentos da vida… Não. Muitos deles quero aqui pra sempre. E não é porque eles me fazem falta – não aceito morrer de saudade de pessoas com quem não convivo mais, das quais não recebo mais notícias ou que nunca me ligaram nem no dia do meu aniversário. A saudade não é delas, acabei de perceber.

Esse é um daqueles insights que mudam a maneira de ver a vida. Costumava achar que a memória detalhista poderia ser um martírio, mas não. Recordar alguns momentos com tanta propriedade são uma bênção quando percebo que não preciso remontar uma cena para ser novamente feliz com ela, e que não preciso estar ao lado das mesmas pessoas para receber toda a carga de emoção que essa lembrança propicia. E isso certamente liberta a mente de alguns nós… Sente a leveza?

Porque, no fundo, o que importa é o que eu senti. E em alguns dias, a certeza de ter sido um dia muito, muito, muito feliz, afasta qualquer tipo de noção ao contrário disso. Ter tido o direito e a oportunidade de viver determinadas situações que poderão ser lembradas para o resto da vida faz acreditar que devemos valer algo, no fim das contas.

Cachoeiras, festa de setembro, tamborins, suecas, cavalos de porcelana, rapadura, bolos de aniversário que acabam no nariz, visita da rainha, fotos em carinhos de supermercado, bola de gude, vassouras de bruxas, camisetas amarelas, Interlagos, malas arrumadas, sapatos com plaquinhas, apresentações de Natal, tinta na cara, desafio, Teatro Mágico, cartazes, perrengues em ônibus na praia, forró, ensaios, acampamento, porteiros e vizinhos reclamões, passeio ciclístico, parquinho, ar livre, caronas, contratos, rotina. Se parar para pensar, a lista não acaba…

Um dia, lembrar de tudo isso me fez mal. Não mais.

Existem tempos para tudo. E as estações mudam rápido demais.

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