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Faxina na casa e na mente

Um sábado sem compromisso tem sido raridade na vida desta escritora que ama rotina. Por isso, ao acordar e me ver sozinha em casa, resolvi fazer minha faxina anual. Esse sim, um ritual seguido desde a infância, que consiste em abrir portas e gavetas e dar fim a tudo aquilo que já não tem utilidade.
Normalmente, sigo um padrão simples: está no mesmo lugar a um ano, é porque não faz mais parte do meu dia a dia, portanto, é desnecessário. É claro que há exceções, mas tento não ser muito complacente com minha própria vontade de continuar acumulando.
É bom para organizar também – hoje mesmo eu guardei no maleiro do armário uma porção de roupas de inverno que não serão requisitadas por muitos meses, já que o Brasil por si é um país tropical e a cidade onde moro é especialmente quente. Sobrou-me muito espaço para novas aquisições e, por enquanto, deixou o armário mais agradável.
Contudo, a minha principal preocupação com essa faxina é muito menos aparente. Com a sujeira e o lixo, vão embora muitos fantasmas… Resquícios do passado que acabaram ficando guardados no fundo daquela gaveta que você quase não mexe, mas vez em quando abre distraidamente para guardar algo que não cabe mais na estante, mas que você ainda não está pronto para descartar.
Enquanto limpava e separava o que ia ou ficava, foi inevitável questionar o que tanto nos faz agarrar por tanto tempo algo que não faz mais sentido. Vivemos na expectativa de novas conquistas e tempos melhores, mas não deixamos o espaço necessário para que isso possa acontecer. Em cada uma dessas faxinas, encontrei algum item que já poderia ter ido embora há muitos anos, mas ainda estava ali, firme, sobrevivendo… E eu sei que isso só acontece por que algo quase escondido num canto escuro das minhas lembranças se recusa a deixar aquela fase passar.
De alguma maneira, certos objetos significam muito para nós, carregam parte de nossa história. Libertar-se de algo que nos marcou, mas passou, e seguir em frente é difícil demais… porém, toda vez que faço essa faxina repito que é totalmente necessário. Como uma criança que larga a chupeta, cada um de nos precisa soltar alguns nós todos os dias para continuar andando adiante.
Apego, desapego… Um ciclo tão duro para um ser humano que chega a chocar. E no final do meu dia de hoje, uma frase que pensei durante minha caminhada matinal encerra perfeitamente a questão: aproveite a sua vida e cuide do seu corpo, pois não há uma sem o outro e, sem ele, temos nada.

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Desequilíbrio

Acredito na sorte. Tenho uma filosofia sobre ela: penso que momentos de fortuna são a maneira de o universo nos mostrar que estamos no caminho certo. Na maioria dos dias, no entanto, tudo acontece dentro da normalidade. Nem muito, nem pouco. A rotina do mediano, tão rejeitada em literaturas, poemas e folhetins, é, no fim das contas, a paz tão almejada todos os dias. Afinal, se a sorte existe – e deixa os dias mais bonitos-, então a balança de energia que rege essa dimensão precisa de um contraponto: o azar.

Como bem e mal, deus e diabo, começo e fim, amor e ódio, também são a sorte e o azar:  dicotomias tolas e triviais, as quais passamos a vida evitando, dando um jeito de contornar. Abrimos tons de cinza para deixar o respirar mais fácil. Acontece que, apesar de tons de cinza funcionarem, eles só comprovam a existência dos extremos preto e branco.

Esse turbilhão de sensações e sentimentos provocado pela extremidade causa fenômenos interessantes. Arroubos de fé, ou descrença. Paixões, rupturas. Riso, desespero. Uma clareza cercada de um instinto quase esmagador, de tão automáticos que nos deixa. E esse momento carregado de adrenalina e explicações orgânicas na verdade é o marco que faz tudo ser questionado. Esse instante de quebra da continuidade nos muda completamente.

E se a sorte, mesmo causando inveja, gera uma vontade incrível de exclamar as boas novas, o azar tem um poder de fazer com que conceitos sejam revistos no silêncio de nossas orações, reflexões, meditações. Pois, de acordo com a minha filosofia, o revés só pode ser sinal de que algo não está lá muito certo.

O comodismo, a aceitação, o conformismo com que tratamos nossa condição todos os dias. O nosso desânimo, a desonestidade, a gentileza em falta no mercado.  Que seja a vida valendo tão pouco em estádios, ruas, escolas, lares. Esse mundo-cão o qual não conseguimos tirar a bunda da cadeira para mudar. Em vez de acertar as contas com a própria consciência e começar imediatamente a ser melhor,  é mais fácil acreditar que as causas de nossas consequências estão mesmo nesse âmbito distante de nossas atitudes.

Dessa vez, não.

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Soltando amarras

Ligar o shuffle no player pode ser uma armadilha de lembranças e saudade fora de hora. Ah, longe de mim querer apagar certos momentos da vida… Não. Muitos deles quero aqui pra sempre. E não é porque eles me fazem falta – não aceito morrer de saudade de pessoas com quem não convivo mais, das quais não recebo mais notícias ou que nunca me ligaram nem no dia do meu aniversário. A saudade não é delas, acabei de perceber.

Esse é um daqueles insights que mudam a maneira de ver a vida. Costumava achar que a memória detalhista poderia ser um martírio, mas não. Recordar alguns momentos com tanta propriedade são uma bênção quando percebo que não preciso remontar uma cena para ser novamente feliz com ela, e que não preciso estar ao lado das mesmas pessoas para receber toda a carga de emoção que essa lembrança propicia. E isso certamente liberta a mente de alguns nós… Sente a leveza?

Porque, no fundo, o que importa é o que eu senti. E em alguns dias, a certeza de ter sido um dia muito, muito, muito feliz, afasta qualquer tipo de noção ao contrário disso. Ter tido o direito e a oportunidade de viver determinadas situações que poderão ser lembradas para o resto da vida faz acreditar que devemos valer algo, no fim das contas.

Cachoeiras, festa de setembro, tamborins, suecas, cavalos de porcelana, rapadura, bolos de aniversário que acabam no nariz, visita da rainha, fotos em carinhos de supermercado, bola de gude, vassouras de bruxas, camisetas amarelas, Interlagos, malas arrumadas, sapatos com plaquinhas, apresentações de Natal, tinta na cara, desafio, Teatro Mágico, cartazes, perrengues em ônibus na praia, forró, ensaios, acampamento, porteiros e vizinhos reclamões, passeio ciclístico, parquinho, ar livre, caronas, contratos, rotina. Se parar para pensar, a lista não acaba…

Um dia, lembrar de tudo isso me fez mal. Não mais.

Existem tempos para tudo. E as estações mudam rápido demais.

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Inspiração em gotas de chuva

É o mesmo caminho de sempre. O céu, no entanto, ameaça. Golpes de vento bagunçam meu cabelo enquanto fecho o máximo possível os olhos pra evitar a poeira. Em cima da bike, sei que aquelas nuvens representam mais do que refresco – na velocidade que gosto de manter, cada gota é uma agulhada de dor. Mas não ligo. Coloco na cabeça que a chuva está longe, acredito firmemente que vai dar tempo de chegar seca em casa e acerto o prumo da magrela que teima em desviar a cada nova lufada de ar.
No meio do caminho, percebo que não tem jeito: vou me molhar e tanto faz seguir em frente ou voltar para trás, então que seja adiante. Nem escuto mais a música, pois o pensamento parece que descobriu uma melodia de uma nota só: você. E é você, com seu jeitinho maroto e a presença quase onipresente, que me faz esquecer o medo de raios e de tomar chuva, pra me deixar curtir, e só.

Enquanto a chuva cai a poucos metros de mim e sinto as gotas que viajam no vento, a adrenalina da disputa contrarrelógio faz o sorriso não desaparecer do meu rosto. E você sabe o quanto eu gosto dessa sensação. Meu riso fica mais feliz ainda quando visualizo, do lado de dentro dos olhos, o seu sorriso mais lindo acompanhando cada giro do pedal. Então entendo que sempre será dessa maneira.

É assim quando ligo a tevê e me distraio olhando nossas fotos na prateleira. Ou se descubro uma roupa sua esquecida embaixo dos meus bichos de pelúcia. É assim quando o vejo penteando os cabelos com a minha escova, e também toda vez que você chega com compras pra abastecer a geladeira… no silêncio cúmplice da casa enquanto fazemos cada um nossas tarefas, e até quando você não está, mas preenche tanto meus espaços que sua ausência é menos notada.

Nas minhas teorias de botequim, desconfio de amores que precisam de farol para sobreviver. As brincadeiras sem hora, os pedidos de desculpa, os passeios cheios de quietude, os nossos caminhos tão particulares e todos os nossos planos são ainda mais especiais por existirem simplesmente pelo fato de sermos você e eu. Numa intensidade que não é só minha, é nossa, minha e sua, compartilhada e degustada com urgência ou calmaria, dependendo do humor, do clima, da paisagem. Eu encontrei uma paz sem precedentes no abismo dos seus olhos de jabuticaba, e jogo-me nele todas as vezes que puder. Por que com você eu vou até o fim do mundo… E, por via das dúvidas, é bom já estar ao seu lado com os boatos dele chegando.

Qualquer jornada é melhor ao seu lado.

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Na beirada

Hoje quero falar sobre respeito. Ou a falta dele, pra especificar melhor. Talvez eu esteja mais exposta – afinal, pelo menos 3 vezes por semana passo agora alguns bons minutos em cima da bike, com os cabelos ao vento e as pernas à vista. Ou pode ser que a idade esteja me tornando mais intolerante mesmo. O suficiente para dar voz a toda revolta que me acompanha há tempos.

Sempre me incomodou muito não conseguir determinar o ponto em que os homens se viram no direito de acuar uma mulher simplesmente pelo fato de ela existir ali. No meu mundo, isso nunca teve o menor cabimento.

Na minha família de três mulheres, meu pai foi o pilar sobre o qual construímos nossa personalidade. Em todos os momentos da minha vida, ele nos apoiou, deu-nos palavras de incentivo, acreditou em nosso potencial, proporcionou todas as ferramentas para que fizéssemos crescer nossas ambições e aplaudiu nossas conquistas. Um herói humilde, sorridente, carinhoso e cheio daquela razão que só os justos possuem.

Minha mãe não fez por menos: serviu de exemplo de força, de luta, de perseverança e de austeridade. Mostrou direitinho que nosso papel no mundo era grande, mas que precisaríamos nos esforçar para alcançá-lo e, depois, mantê-lo. Foi, ainda é, a referência inabalável de que a vida pode ser muito boa se seguirmos pelo caminho certo, mesmo que não seja o mais fácil na maioria das vezes. Tudo isso sem deixar de nos acordar, a mim e à minha irmã, com um copo de leite morno com chocolate.

Então, não. Não aceito, não concordo e não me submeto à falta de respeito. Sou uma mulher que segue todos os dias da casa para o trabalho, de um trabalho para o outro, e de lá volta satisfeita, apesar do cansaço, e não tolero mais a falta de educação, de hombridade, do mínimo de noção que seja, em parece que a maioria dos homens do mundo.

Tenho um recado a todos esses homens.

Eu e todas as mulheres do mundo somos suas namoradas, amigas, irmãs, mães, avós, tias e primas. Cada uma das mulheres importantes em sua vida. Não faça com que precisemos sentir medo de viver nossa liberdade nem com que precisemos nos esconder. Admire nossa beleza sem ser rude, sem parecer um animal idiota que não enxerga o valor da dignidade nem se ela fizer acampamento na porta da sua casa. Seja capaz de cumprimentar essa mulher que passa com um sorriso no olhar, não com olhos de gula. Não ultrapasse a tênue linha que separa o seu direito de falar do meu direito de não escutar. Expresse-se com um mínimo de amor… E deixe que sejamos em paz.

 

“A inteligência sem amor te faz perverso
A vida sem amor…não tem sentido”. (Autor indefinido)

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Free your soul.

Nascemos livres. Dura questão de segundos. Depois disso, uma sucessão interminável de amarras toma conta de nossos pensamentos, desejos e sonhos. Cada um sabe o vento mais forte que lhe desvia o curso e como às vezes é impossível aguentar firme. Cada um tem a inigualável missão de aceitar novos caminhos, tenham eles as curvas ou percalços que tiverem. Compreender a marcha, tocar em frente, assim como canta o grande poeta violeiro Almir Sater.

Em alguma hora, cansa. Cansa estar o tempo todo vigilante, alerta, apressado pelos horários e compromissos, cobrar, entregar no prazo. E, em algum momento, fiz-me inconformada, fiz-me insuportavelmente positiva. E desafiei o cansaço, a ditadura do meu próprio medo de ser um pouco mais livre. Questionei: afinal, há modos de simplesmente ser, nesse mundo babilônico onde todos sabem o que é correto, mas fingem não saber quando é conveniente, no qual os tons de cinza apenas servem à quem dita o que é branco e o que é preto?

Eu encontrei a minha liberdade em meio a tanta injustiça. Sobre meus próprios pés, percebi que podia ir mais rápido que meu pensamento e finalmente esvaziar as ideias durante aqueles minutos de corrida. O tempo passou e eu quis ir mais longe. Acasos e pessoas especiais me guiaram à plenitude da minha vida livre de muito do que me fazia mal. E , no Dia Mundial Sem Carro, consigo a inspiração para contar, nessas linhas, que hoje eu levo minha liberdade para passear de bicicleta.

Ela vai de mãos dadas com a minha felicidade. Inabaláveis, as duas seguem sem se importar com caras feias, gente rancorosa e narizes torcidos. Sobre as duas rodas desse objeto que poderia muito bem ser, de tanto que inspira sentimentos, tudo isso fica no mais rebaixado plano, sobreposto pelos sorrisos das crianças que apontam e desejam estar ali, pela serotonina, pelo vento no rosto, pelo bem-estar, pela certeza pessoal de que aquela escolha muda muito no mundo, pelo prazer de ir e voltar sem estresse, pela música que acompanha baixinho, pelos cheiros e as cores antes despercebidos, pela extrema, genuína, incrível sensação de ser livre.

É claro que a liberdade não exclui os problemas e vivo pedalando por aí preocupada com ônibus tirando fina e motoristas egoisticamente apressados (dos quais, não muito tempo atrás, já fiz parte). Mas pedalo com um sorriso no rosto e uma certeza na mente:  minha bicicleta, minha Magrela, que se encaixou tão bem na minha rotina de dois empregos e meia hora de almoço, me faz economizar com gasolina, academia e rugas,  essa maravilha do design em prol da mobilidade me abriu caminhos maravilhosos, cujos trajetos descubro com muita vontade e energia, sem me importar muito com o que tem no fim da estrada. Em cima da bike, o destino é a própria viagem.

Pedalo porque quero. Porque gosto. Porque curto. E também porque preciso, afinal, todo amor necessita cuidados. Torço para que cada um consiga descobrir na vida o que lhe libertará a mente. Passamos tanto tempo buscando a felicidade que nos esquecemos de percebê-la logo aqui, do lado da gente. No meu caso, ela está também sobre duas rodas.

#vádebike

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Novos sentidos

A vida passa e ficam muitas histórias. Tolice seria ignorar as que não gostamos muito. Bobagem imaginar que pode-se simplesmente botar naquele ponto uma pedra e prosseguir como se um novo livro estivesse sendo aberto e nada tivesse a ver com o anterior. Dá até pra virar uma página, encerrar um capítulo ou mudar o volume da nossa série (muito maior que uma trilogia) de livros da vida, mas sempre se manterá o fio condutor dos dias até aqui, as lembranças e as experiências.

Por isso, é impossível manter tanta ingenuidade no cotidiano, a ponto de acreditar em amor à primeira vista. Acredito em reconhecimento. Uma aproximação inevitável de almas afins, que invariavelmente se encontrariam em algum pedaço da estrada para experimentar aquela atração descontrolada, aquela uma urgência mal-explicada de crescerem juntas,  somarem qualidades, invadirem as camadas mais protegidas da personalidade e se descobrirem ainda mais feitas da mesma matéria.

Como é fácil de perceber, ainda há certa inocência. Nunca se perde completamente a fé. Como é bom seguir o caminho deixando alguns quilos de encanação pra trás, tendo finalmente percebido que não vale a pena se importar com o que chateia e pesa. E, quando se tem pés de bailarina e alma aventureira, pedir leveza é pedir o básico. Aí, quando nos damos conta… Estamos olhando o chão do alto, vendo as pegadas sumirem enquanto alçamos um voo meio insano, meio inevitável, que rola com trilha sonora de Bob Marley, Almir Sater, Colbie, JJ e Maskavo. Ou seja lá o que for que te faz feliz, traz paz pro seu dia, permite um amanhecer melhor nas manhãs frias.

Aquela coisa que tem um nome curto e uma carga enorme de relevância ganha outra conotação. Em vez do turbilhão costumeiro, uma estranha lucidez clareia as ideias. Em vez do medo típico, está lá uma confiança que beira o atrevimento. Em vez da vontade que vivia indo embora nas horas mais impróprias, uma disposição constante para qualquer coisa. No lugar da certeza absoluta, a perfeita consciência de que tudo é passível de mudança, mas faz bem aproveitar nossas vivências com intensidade enquanto elas duram.

Inspiração, poesia, sorrisos e energias positivas passam a fazer parte da rotina. Não é preciso pressa quando se tem um prazo indeterminado de validade, que pode muito bem nunca chegar. Chame do que quiser. Na verdade, não importa o rótulo. Continuo com meu sorriso, minha serenidade, minha plenitude, minha convicção de que tudo isso veio antes e que só por isso me foi permitido um voucher para dois nesse balão sem nome, mas com muito sentimento.

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