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Eternamente em construção

Não foi uma noite tranquila. Sonhos e frases prontas a acordaram muitas vezes durante o sono e, quando finalmente já era dia, a menina desistiu de dormir e resolveu encarar de uma vez todos os pensamentos que lhe assombravam.

E foi de repente que ali, no meio do viver cotidiano, a consciência de todos os anos a atingiu. Não eram muitos, mas assim, como um véu que é retirado, eles fizeram muita diferença. E a menina se perguntou como ficou tão madura e começou a entender as nuances da vida, a lidar com as frustrações como quem não tem medo, a dar conselhos dignos de vó.

Ela achou esse um conhecimento complicado de se ter. Doeu um pouco olhar pra própria vida com senso crítico e perceber os erros, mas valeu a pena quando ela constatou que os acertos foram mais significativos e que todas as experiências, boas e ruins, foram extremamente necessárias pra formar aquela menina que havia se tornado. Uma menina que ainda brincava de boneca quando encontrava tempo, sem jamais esquecer da real beleza da vida.

♫ Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração…

Decisões são difíceis e parece que não tem jeito, a vida inteira elas vão aparecer em momentos dos menos oportunos, então ela resolveu fazer isso pelo menos do jeito mais digno, de cabeça erguida, peito aberto e as mãos segurando de um lado a coragem, do outro a proteção dos anjos.

E, quando tudo voltou a se encaixar de novo, ela percebeu que não adianta tentar parar as estações do ano, as marés, as horas que passam, o dia que chega. O mundo vai continuar girando e a única saída é acertar o passo com ele e com Deus. Depois disso, não há tempestade que dure mais que o necessário para fazer a menina lembrar de como gosta dos dias de sol.

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Desequilíbrio

Acredito na sorte. Tenho uma filosofia sobre ela: penso que momentos de fortuna são a maneira de o universo nos mostrar que estamos no caminho certo. Na maioria dos dias, no entanto, tudo acontece dentro da normalidade. Nem muito, nem pouco. A rotina do mediano, tão rejeitada em literaturas, poemas e folhetins, é, no fim das contas, a paz tão almejada todos os dias. Afinal, se a sorte existe – e deixa os dias mais bonitos-, então a balança de energia que rege essa dimensão precisa de um contraponto: o azar.

Como bem e mal, deus e diabo, começo e fim, amor e ódio, também são a sorte e o azar:  dicotomias tolas e triviais, as quais passamos a vida evitando, dando um jeito de contornar. Abrimos tons de cinza para deixar o respirar mais fácil. Acontece que, apesar de tons de cinza funcionarem, eles só comprovam a existência dos extremos preto e branco.

Esse turbilhão de sensações e sentimentos provocado pela extremidade causa fenômenos interessantes. Arroubos de fé, ou descrença. Paixões, rupturas. Riso, desespero. Uma clareza cercada de um instinto quase esmagador, de tão automáticos que nos deixa. E esse momento carregado de adrenalina e explicações orgânicas na verdade é o marco que faz tudo ser questionado. Esse instante de quebra da continuidade nos muda completamente.

E se a sorte, mesmo causando inveja, gera uma vontade incrível de exclamar as boas novas, o azar tem um poder de fazer com que conceitos sejam revistos no silêncio de nossas orações, reflexões, meditações. Pois, de acordo com a minha filosofia, o revés só pode ser sinal de que algo não está lá muito certo.

O comodismo, a aceitação, o conformismo com que tratamos nossa condição todos os dias. O nosso desânimo, a desonestidade, a gentileza em falta no mercado.  Que seja a vida valendo tão pouco em estádios, ruas, escolas, lares. Esse mundo-cão o qual não conseguimos tirar a bunda da cadeira para mudar. Em vez de acertar as contas com a própria consciência e começar imediatamente a ser melhor,  é mais fácil acreditar que as causas de nossas consequências estão mesmo nesse âmbito distante de nossas atitudes.

Dessa vez, não.

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