Inspiração em gotas de chuva

É o mesmo caminho de sempre. O céu, no entanto, ameaça. Golpes de vento bagunçam meu cabelo enquanto fecho o máximo possível os olhos pra evitar a poeira. Em cima da bike, sei que aquelas nuvens representam mais do que refresco – na velocidade que gosto de manter, cada gota é uma agulhada de dor. Mas não ligo. Coloco na cabeça que a chuva está longe, acredito firmemente que vai dar tempo de chegar seca em casa e acerto o prumo da magrela que teima em desviar a cada nova lufada de ar.
No meio do caminho, percebo que não tem jeito: vou me molhar e tanto faz seguir em frente ou voltar para trás, então que seja adiante. Nem escuto mais a música, pois o pensamento parece que descobriu uma melodia de uma nota só: você. E é você, com seu jeitinho maroto e a presença quase onipresente, que me faz esquecer o medo de raios e de tomar chuva, pra me deixar curtir, e só.

Enquanto a chuva cai a poucos metros de mim e sinto as gotas que viajam no vento, a adrenalina da disputa contrarrelógio faz o sorriso não desaparecer do meu rosto. E você sabe o quanto eu gosto dessa sensação. Meu riso fica mais feliz ainda quando visualizo, do lado de dentro dos olhos, o seu sorriso mais lindo acompanhando cada giro do pedal. Então entendo que sempre será dessa maneira.

É assim quando ligo a tevê e me distraio olhando nossas fotos na prateleira. Ou se descubro uma roupa sua esquecida embaixo dos meus bichos de pelúcia. É assim quando o vejo penteando os cabelos com a minha escova, e também toda vez que você chega com compras pra abastecer a geladeira… no silêncio cúmplice da casa enquanto fazemos cada um nossas tarefas, e até quando você não está, mas preenche tanto meus espaços que sua ausência é menos notada.

Nas minhas teorias de botequim, desconfio de amores que precisam de farol para sobreviver. As brincadeiras sem hora, os pedidos de desculpa, os passeios cheios de quietude, os nossos caminhos tão particulares e todos os nossos planos são ainda mais especiais por existirem simplesmente pelo fato de sermos você e eu. Numa intensidade que não é só minha, é nossa, minha e sua, compartilhada e degustada com urgência ou calmaria, dependendo do humor, do clima, da paisagem. Eu encontrei uma paz sem precedentes no abismo dos seus olhos de jabuticaba, e jogo-me nele todas as vezes que puder. Por que com você eu vou até o fim do mundo… E, por via das dúvidas, é bom já estar ao seu lado com os boatos dele chegando.

Qualquer jornada é melhor ao seu lado.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em bike, histórias, pensamentos, rotina

Ninguém como você

Letras de músicas sempre me fizeram refletir. Sempre. Sou uma mulher de palavras desde a meninice. Já perdi a conta de quantas vezes passei a gostar de uma música por causa da letra, e parei de ouvir tantas outras pelo mesmo motivo. As canções começavam a frequentar minha playlist depois de um fato marcante e durante uma fase específica, só porque a letra tinha tudo a ver com o que eu sentia, pensava e queria mais do que tudo gritar, por pra fora, extravasar, mas não me permitia. Passei a vida usando músicas e as palavras do compositor, que eu suspeito muito ter o poder de ler mentes, como terapia pra um sofrimento que era só meu e eu ficava feliz, obrigada, por não precisar ser fraca nem mesmo se a música estivesse tocando no meio de uma multidão.

Com essa, foi bem diferente. Foi completamente o contrário. Quando eu parei pra prestar atenção em Someone Like You pela primeira vez, não fez sentido. Não havia alguém que encaixasse nesse contexto. Meu passado me condenava e eu não queria ninguém igual a nenhum ex, fosse rolo, namorado, peguete, amigo colorido, paixão platônica, nenhum ex. Queria alguém que fosse nada como eles. Exagerado assim mesmo. Não me entenda mal, não sou tão insensível assim, mas viver no luto nunca foi comigo. Apagar as lembranças é impossível, só que construir um futuro sem deixar o passado quieto lá, no lugar dele, também é uma missão inviável. Então, eu me recusei a ser essa menina da letra. Não ia ficar remoendo o que poderia ter sido e buscando tantos “ses” em pobres mortais que eu insistiria em encaixar numa forma ultrapassada.

Passa o tempo. Meu “someone nothing like you” apareceu sem maiores avisos e ficou porque não existia um “like you” com quem compará-lo, fato. Minha vida, inteira, conseguiu encaixar mais gostoso que dormir de conchinha com a inteira vida dele. E eu parei de ser a menina romântica para me tornar uma mulher amante, amada, apaixonada. Não precisava de nenhuma declaração além daquela feita a sós, não precisava de um pedido de namoro num balão, e de tão imersa em novidades e surpresas boas, sequer percebi que nossas rotinas viraram uma sem que nós precisássemos deixar de ser dois. Casar? Casar é uma formalidade, um jeito de dizer para o mundo que somos invencíveis juntos, um verbo que não assusta mais. Se isso que vivemos é casamento, que todos possam ser assim, e que parem de implicar com a nossa felicidade.

E aí, Someone Like You deu lugar a One and Only, Make You Feel My Love, Lovesong e tantas outras canções que continuam lendo meus pensamentos e contando para o mundo aquilo que eu digo ao pé do ouvido dele, durante aquele abraço que torna dúvidas, incertezas, encanações e medos todos infundados, independente de haver alguém lá fora ouvindo as minhas declarações de amor.

Deixe um comentário

Arquivado em casamento, pensamentos

Na beirada

Hoje quero falar sobre respeito. Ou a falta dele, pra especificar melhor. Talvez eu esteja mais exposta – afinal, pelo menos 3 vezes por semana passo agora alguns bons minutos em cima da bike, com os cabelos ao vento e as pernas à vista. Ou pode ser que a idade esteja me tornando mais intolerante mesmo. O suficiente para dar voz a toda revolta que me acompanha há tempos.

Sempre me incomodou muito não conseguir determinar o ponto em que os homens se viram no direito de acuar uma mulher simplesmente pelo fato de ela existir ali. No meu mundo, isso nunca teve o menor cabimento.

Na minha família de três mulheres, meu pai foi o pilar sobre o qual construímos nossa personalidade. Em todos os momentos da minha vida, ele nos apoiou, deu-nos palavras de incentivo, acreditou em nosso potencial, proporcionou todas as ferramentas para que fizéssemos crescer nossas ambições e aplaudiu nossas conquistas. Um herói humilde, sorridente, carinhoso e cheio daquela razão que só os justos possuem.

Minha mãe não fez por menos: serviu de exemplo de força, de luta, de perseverança e de austeridade. Mostrou direitinho que nosso papel no mundo era grande, mas que precisaríamos nos esforçar para alcançá-lo e, depois, mantê-lo. Foi, ainda é, a referência inabalável de que a vida pode ser muito boa se seguirmos pelo caminho certo, mesmo que não seja o mais fácil na maioria das vezes. Tudo isso sem deixar de nos acordar, a mim e à minha irmã, com um copo de leite morno com chocolate.

Então, não. Não aceito, não concordo e não me submeto à falta de respeito. Sou uma mulher que segue todos os dias da casa para o trabalho, de um trabalho para o outro, e de lá volta satisfeita, apesar do cansaço, e não tolero mais a falta de educação, de hombridade, do mínimo de noção que seja, em parece que a maioria dos homens do mundo.

Tenho um recado a todos esses homens.

Eu e todas as mulheres do mundo somos suas namoradas, amigas, irmãs, mães, avós, tias e primas. Cada uma das mulheres importantes em sua vida. Não faça com que precisemos sentir medo de viver nossa liberdade nem com que precisemos nos esconder. Admire nossa beleza sem ser rude, sem parecer um animal idiota que não enxerga o valor da dignidade nem se ela fizer acampamento na porta da sua casa. Seja capaz de cumprimentar essa mulher que passa com um sorriso no olhar, não com olhos de gula. Não ultrapasse a tênue linha que separa o seu direito de falar do meu direito de não escutar. Expresse-se com um mínimo de amor… E deixe que sejamos em paz.

 

“A inteligência sem amor te faz perverso
A vida sem amor…não tem sentido”. (Autor indefinido)

2 Comentários

Arquivado em infância, pensamentos, rotina

Free your soul.

Nascemos livres. Dura questão de segundos. Depois disso, uma sucessão interminável de amarras toma conta de nossos pensamentos, desejos e sonhos. Cada um sabe o vento mais forte que lhe desvia o curso e como às vezes é impossível aguentar firme. Cada um tem a inigualável missão de aceitar novos caminhos, tenham eles as curvas ou percalços que tiverem. Compreender a marcha, tocar em frente, assim como canta o grande poeta violeiro Almir Sater.

Em alguma hora, cansa. Cansa estar o tempo todo vigilante, alerta, apressado pelos horários e compromissos, cobrar, entregar no prazo. E, em algum momento, fiz-me inconformada, fiz-me insuportavelmente positiva. E desafiei o cansaço, a ditadura do meu próprio medo de ser um pouco mais livre. Questionei: afinal, há modos de simplesmente ser, nesse mundo babilônico onde todos sabem o que é correto, mas fingem não saber quando é conveniente, no qual os tons de cinza apenas servem à quem dita o que é branco e o que é preto?

Eu encontrei a minha liberdade em meio a tanta injustiça. Sobre meus próprios pés, percebi que podia ir mais rápido que meu pensamento e finalmente esvaziar as ideias durante aqueles minutos de corrida. O tempo passou e eu quis ir mais longe. Acasos e pessoas especiais me guiaram à plenitude da minha vida livre de muito do que me fazia mal. E , no Dia Mundial Sem Carro, consigo a inspiração para contar, nessas linhas, que hoje eu levo minha liberdade para passear de bicicleta.

Ela vai de mãos dadas com a minha felicidade. Inabaláveis, as duas seguem sem se importar com caras feias, gente rancorosa e narizes torcidos. Sobre as duas rodas desse objeto que poderia muito bem ser, de tanto que inspira sentimentos, tudo isso fica no mais rebaixado plano, sobreposto pelos sorrisos das crianças que apontam e desejam estar ali, pela serotonina, pelo vento no rosto, pelo bem-estar, pela certeza pessoal de que aquela escolha muda muito no mundo, pelo prazer de ir e voltar sem estresse, pela música que acompanha baixinho, pelos cheiros e as cores antes despercebidos, pela extrema, genuína, incrível sensação de ser livre.

É claro que a liberdade não exclui os problemas e vivo pedalando por aí preocupada com ônibus tirando fina e motoristas egoisticamente apressados (dos quais, não muito tempo atrás, já fiz parte). Mas pedalo com um sorriso no rosto e uma certeza na mente:  minha bicicleta, minha Magrela, que se encaixou tão bem na minha rotina de dois empregos e meia hora de almoço, me faz economizar com gasolina, academia e rugas,  essa maravilha do design em prol da mobilidade me abriu caminhos maravilhosos, cujos trajetos descubro com muita vontade e energia, sem me importar muito com o que tem no fim da estrada. Em cima da bike, o destino é a própria viagem.

Pedalo porque quero. Porque gosto. Porque curto. E também porque preciso, afinal, todo amor necessita cuidados. Torço para que cada um consiga descobrir na vida o que lhe libertará a mente. Passamos tanto tempo buscando a felicidade que nos esquecemos de percebê-la logo aqui, do lado da gente. No meu caso, ela está também sobre duas rodas.

#vádebike

Deixe um comentário

Arquivado em pensamentos, rotina

Happy times!

Crescer é sonhar com um aspirador de pó e não se sentir mais parte de nada daquilo que, um dia, foi praticamente tudo… Mas fazer parte de algo ainda maior e descobrir, no caminho, que nem as melhores utopias foram tão boas quanto a vida de verdade.

Ficam as memórias, fica alguma saudade perdida num cotidiano cheio de novidades, ficam fotos que marcam um tempo bom. Olhar pra trás e perceber que não houve tempo jogado fora é reconfortante.

Olhar pro hoje e descobrir que tudo teve uma hora certa (parar, continuar, mudar de direção) dá cada vez mais certeza de que os melhores anos da vida ainda não passaram. Pelo contrário: ainda há muita energia pra tudo! Trabalhar, correr, pedalar, curtir a natureza e dançar em qualquer lugar em que estiver.

The party is just getting started!

E quanto mais eu vivo, mais quero viver… Porque sorte é o sinal mais óbvio do universo pra dizer que estamos no caminho certo.

1 comentário

Arquivado em Uncategorized

Novos sentidos

A vida passa e ficam muitas histórias. Tolice seria ignorar as que não gostamos muito. Bobagem imaginar que pode-se simplesmente botar naquele ponto uma pedra e prosseguir como se um novo livro estivesse sendo aberto e nada tivesse a ver com o anterior. Dá até pra virar uma página, encerrar um capítulo ou mudar o volume da nossa série (muito maior que uma trilogia) de livros da vida, mas sempre se manterá o fio condutor dos dias até aqui, as lembranças e as experiências.

Por isso, é impossível manter tanta ingenuidade no cotidiano, a ponto de acreditar em amor à primeira vista. Acredito em reconhecimento. Uma aproximação inevitável de almas afins, que invariavelmente se encontrariam em algum pedaço da estrada para experimentar aquela atração descontrolada, aquela uma urgência mal-explicada de crescerem juntas,  somarem qualidades, invadirem as camadas mais protegidas da personalidade e se descobrirem ainda mais feitas da mesma matéria.

Como é fácil de perceber, ainda há certa inocência. Nunca se perde completamente a fé. Como é bom seguir o caminho deixando alguns quilos de encanação pra trás, tendo finalmente percebido que não vale a pena se importar com o que chateia e pesa. E, quando se tem pés de bailarina e alma aventureira, pedir leveza é pedir o básico. Aí, quando nos damos conta… Estamos olhando o chão do alto, vendo as pegadas sumirem enquanto alçamos um voo meio insano, meio inevitável, que rola com trilha sonora de Bob Marley, Almir Sater, Colbie, JJ e Maskavo. Ou seja lá o que for que te faz feliz, traz paz pro seu dia, permite um amanhecer melhor nas manhãs frias.

Aquela coisa que tem um nome curto e uma carga enorme de relevância ganha outra conotação. Em vez do turbilhão costumeiro, uma estranha lucidez clareia as ideias. Em vez do medo típico, está lá uma confiança que beira o atrevimento. Em vez da vontade que vivia indo embora nas horas mais impróprias, uma disposição constante para qualquer coisa. No lugar da certeza absoluta, a perfeita consciência de que tudo é passível de mudança, mas faz bem aproveitar nossas vivências com intensidade enquanto elas duram.

Inspiração, poesia, sorrisos e energias positivas passam a fazer parte da rotina. Não é preciso pressa quando se tem um prazo indeterminado de validade, que pode muito bem nunca chegar. Chame do que quiser. Na verdade, não importa o rótulo. Continuo com meu sorriso, minha serenidade, minha plenitude, minha convicção de que tudo isso veio antes e que só por isso me foi permitido um voucher para dois nesse balão sem nome, mas com muito sentimento.

Deixe um comentário

Arquivado em pensamentos, rotina

Círculo virtuoso*

Aquela menina acordou em paz.

What do you really see...?Estava frio só lá fora. Dentro do quarto, era seu coração que transbordava calor pra todos os cantos. Abriu a janela e fechou novamente os olhos para receber o Sol – e ele ficou mais quente com o sorriso da menina. Colocou, baixinho, uma música de despertar e deixou o ar fresco da manhã lhe arrepiar a pele. Viver pela metade não tem graça.

Não interessava que dia da semana era, ou quais eram os compromissos da agenda. Qualquer coisa que fosse, ela faria com disposição. O mundo era um eterno domingo à tarde, com todas as possibilidades ainda abertas pela frente. Bastava escolher.

Naquele dia, ela questionou a cisma das pessoas e decidiu que não havia mal nenhum no outono ou na segunda-feira. Que inventassem outros motivos para reclamar, pois os que já existiam ela havia descartado. Nada pode entristecer uma mente plena.

Plenitude… Essa palavra rondava os pensamentos da menina há algumas semanas, ela sem entender o porquê. Não foi preciso muito tempo. Como uma cortina que se abre, os motivos apareceram um a um, num desfile de escola de samba na avenida da alma, trazendo alegrias perenes e levando dúvidas embora, estampando em estandartes os sentimentos que, convenhamos, eram bonitos demais para se deixarem esconder.

Foi assim, naturalmente. Nada mais a distraía. Era tudo muito certo, muito inteiro, muito pronto.

E aquela menina dormiu em paz…

*Gu, obrigada pela inspiração do título. =o)

1 comentário

Arquivado em histórias, rotina