Arquivo da tag: amor

Desequilíbrio

Acredito na sorte. Tenho uma filosofia sobre ela: penso que momentos de fortuna são a maneira de o universo nos mostrar que estamos no caminho certo. Na maioria dos dias, no entanto, tudo acontece dentro da normalidade. Nem muito, nem pouco. A rotina do mediano, tão rejeitada em literaturas, poemas e folhetins, é, no fim das contas, a paz tão almejada todos os dias. Afinal, se a sorte existe – e deixa os dias mais bonitos-, então a balança de energia que rege essa dimensão precisa de um contraponto: o azar.

Como bem e mal, deus e diabo, começo e fim, amor e ódio, também são a sorte e o azar:  dicotomias tolas e triviais, as quais passamos a vida evitando, dando um jeito de contornar. Abrimos tons de cinza para deixar o respirar mais fácil. Acontece que, apesar de tons de cinza funcionarem, eles só comprovam a existência dos extremos preto e branco.

Esse turbilhão de sensações e sentimentos provocado pela extremidade causa fenômenos interessantes. Arroubos de fé, ou descrença. Paixões, rupturas. Riso, desespero. Uma clareza cercada de um instinto quase esmagador, de tão automáticos que nos deixa. E esse momento carregado de adrenalina e explicações orgânicas na verdade é o marco que faz tudo ser questionado. Esse instante de quebra da continuidade nos muda completamente.

E se a sorte, mesmo causando inveja, gera uma vontade incrível de exclamar as boas novas, o azar tem um poder de fazer com que conceitos sejam revistos no silêncio de nossas orações, reflexões, meditações. Pois, de acordo com a minha filosofia, o revés só pode ser sinal de que algo não está lá muito certo.

O comodismo, a aceitação, o conformismo com que tratamos nossa condição todos os dias. O nosso desânimo, a desonestidade, a gentileza em falta no mercado.  Que seja a vida valendo tão pouco em estádios, ruas, escolas, lares. Esse mundo-cão o qual não conseguimos tirar a bunda da cadeira para mudar. Em vez de acertar as contas com a própria consciência e começar imediatamente a ser melhor,  é mais fácil acreditar que as causas de nossas consequências estão mesmo nesse âmbito distante de nossas atitudes.

Dessa vez, não.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em equilíbrio, pensamentos, rotina, serendipity

Same changes

Crescer não é fácil. Quando achávamos que o pior havia passado, vem uma nova onda de frio na barriga, borboletas descontroladas, pressões e mudanças.

Afinal, quando se tem 18 anos, mudar de cidade de mala, cuia e coragem nas costas é aterrorizante. Mas chegamos ao nosso destino cheios de esperança e admiração, prontos para aceitar de bom grado as pessoas incríveis que encontramos no caminho e lutar bravamente conta os amores tóxicos que despedaçam nossos corações. Enfrentamos todos esses monstros com a maior dignidade e cruzamos esse vale de dualismos que é a transição entre a adolescência e a vida de gente grande.

Aí, na hora que finalmente nos permitimos respirar fundo, limpamos a poeira de tantas batalhas esperando que tempos mais tranquilos estejam por vir, vem o verdadeiro baque. As contas não vêm mais no nome de nossos pais, a faxina da casa ou nós mesmos fazemos ou fica tudo sujo, seu chefe ou seus clientes não vão aceitar desculpas do tipo “meu cachorro comeu seu projeto” e se resolvemos ficar na cama num dia de preguiça, adeus emprego.

E isso é só o aperitivo… Logo nos acostumamos e viramos os donos da situação. Mas só porque estávamos escaldados de joguinhos e amores malresolvidos, muito preocupados com nossas recém-começadas carreiras para sequer pensar em um envolvimento amoroso, BAM! A pessoa mais perfeita do mundo aparece do nada no seu caminho (ah, Lisbela, não é mesmo engraçado que o amor da nossa vida apareça justamente na nossa vida?!). Viagem para o exterior, cursos de especialização, doutorado em outro país e outros planos superpessoais começam a conviver com viagens românticas, jantares a dois, famílias, alianças, casa, filhos… E percebemos que faltava mesmo essa parte.

Porque se crescer não é fácil, imagine crescer sozinho…? Não dá. São decisões demais, responsabilidades demais, mudanças demais, alegrias demais! Algumas delas vêm só porque duas vidas se entrelaçaram sem jeito de desembaralhar, mas e daí? Quando encontramos esse tipo de companheirismo, qualquer consequência fica mais leve.

Que julguem aqueles que nunca se depararam com um amor assim. “Esse amor vai mudar você”, dizem… E sempre devolvi a sentença: o que é que não me muda? À velha máxima “a única certeza da vida é a morte”, eu acrescento hoje que não, temos outra certeza além dessa: a mudança.

As borboletas no meu estômago que o digam: “que seja sempre para muito melhor”… ;o)

Deixe um comentário

Arquivado em casamento, histórias, infância, pensamentos, tempo

Inspiração em gotas de chuva

É o mesmo caminho de sempre. O céu, no entanto, ameaça. Golpes de vento bagunçam meu cabelo enquanto fecho o máximo possível os olhos pra evitar a poeira. Em cima da bike, sei que aquelas nuvens representam mais do que refresco – na velocidade que gosto de manter, cada gota é uma agulhada de dor. Mas não ligo. Coloco na cabeça que a chuva está longe, acredito firmemente que vai dar tempo de chegar seca em casa e acerto o prumo da magrela que teima em desviar a cada nova lufada de ar.
No meio do caminho, percebo que não tem jeito: vou me molhar e tanto faz seguir em frente ou voltar para trás, então que seja adiante. Nem escuto mais a música, pois o pensamento parece que descobriu uma melodia de uma nota só: você. E é você, com seu jeitinho maroto e a presença quase onipresente, que me faz esquecer o medo de raios e de tomar chuva, pra me deixar curtir, e só.

Enquanto a chuva cai a poucos metros de mim e sinto as gotas que viajam no vento, a adrenalina da disputa contrarrelógio faz o sorriso não desaparecer do meu rosto. E você sabe o quanto eu gosto dessa sensação. Meu riso fica mais feliz ainda quando visualizo, do lado de dentro dos olhos, o seu sorriso mais lindo acompanhando cada giro do pedal. Então entendo que sempre será dessa maneira.

É assim quando ligo a tevê e me distraio olhando nossas fotos na prateleira. Ou se descubro uma roupa sua esquecida embaixo dos meus bichos de pelúcia. É assim quando o vejo penteando os cabelos com a minha escova, e também toda vez que você chega com compras pra abastecer a geladeira… no silêncio cúmplice da casa enquanto fazemos cada um nossas tarefas, e até quando você não está, mas preenche tanto meus espaços que sua ausência é menos notada.

Nas minhas teorias de botequim, desconfio de amores que precisam de farol para sobreviver. As brincadeiras sem hora, os pedidos de desculpa, os passeios cheios de quietude, os nossos caminhos tão particulares e todos os nossos planos são ainda mais especiais por existirem simplesmente pelo fato de sermos você e eu. Numa intensidade que não é só minha, é nossa, minha e sua, compartilhada e degustada com urgência ou calmaria, dependendo do humor, do clima, da paisagem. Eu encontrei uma paz sem precedentes no abismo dos seus olhos de jabuticaba, e jogo-me nele todas as vezes que puder. Por que com você eu vou até o fim do mundo… E, por via das dúvidas, é bom já estar ao seu lado com os boatos dele chegando.

Qualquer jornada é melhor ao seu lado.

Deixe um comentário

Arquivado em bike, histórias, pensamentos, rotina