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Conto de natal

bola

É uma noite quente de dezembro e uma linda menina está sentada em sua cômoda arranhando o lápis num papel de carta escolhido a dedo para aquela ocasião. Escrevia seus pedidos ao bom velhinho e tinha acabado de colocar o ponto final quando se virou para a janela bem a tempo de ver uma estrela cadente riscar o céu.

Seus olhinhos brilharam com a possibilidade de ter todos aqueles desejos realizados. Não era isso que significava presenciar um evento tão sublime do universo? Segurou sua cartinha com esperança e colocou dentro da meia que os pais haviam separado. Foi dormir com um sorriso no rosto e teve um sonho incrível naquela noite.

No sonho, seu dia de Natal era tudo o que ela poderia querer. Usava seu vestido predileto e tinha os pés descalços, sentindo a terra molhada e o toque da grama daquele lugar que lhe era tão precioso, o paraíso particular para onde sempre corria quando precisava de paz. Ouvia o canto dos pássaros se misturar às vozes das pessoas que mais amava e um coral de risadas era a música que preenchia seu mundo.

Reconhecia em cada rosto a vontade imensa de estar exatamente ali e a alegria de poder engrossar aquele caldo de pessoas de bem. Em seu sonho, no qual tudo era possível, não faltou um sorriso sequer. Abraçou mais forte aqueles que já não podia ver quando estava acordada e aproveitou para matar a saudade, que sempre aumentava nos dias de Natal.

Chorou de felicidade, molhando as flores com suas lágrimas puras, e viu seu mundo imaginário ganhar ainda mais cor. Correu com outras crianças e sujou a roupa, como tinha que ser. Mas na hora da oração, fechou os olhos e silenciou, segurando as mãos daquelas pessoas que faziam dela mais segura, mais inteira, mais menina e cada dia melhor.

Acordou com o beijo da mãe e o carinho do pai, como acontecia todos os dias, mas em vez do bom dia usual, a menina foi logo perguntando:

– Falta muito pro Natal?

 

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Eternamente em construção

Não foi uma noite tranquila. Sonhos e frases prontas a acordaram muitas vezes durante o sono e, quando finalmente já era dia, a menina desistiu de dormir e resolveu encarar de uma vez todos os pensamentos que lhe assombravam.

E foi de repente que ali, no meio do viver cotidiano, a consciência de todos os anos a atingiu. Não eram muitos, mas assim, como um véu que é retirado, eles fizeram muita diferença. E a menina se perguntou como ficou tão madura e começou a entender as nuances da vida, a lidar com as frustrações como quem não tem medo, a dar conselhos dignos de vó.

Ela achou esse um conhecimento complicado de se ter. Doeu um pouco olhar pra própria vida com senso crítico e perceber os erros, mas valeu a pena quando ela constatou que os acertos foram mais significativos e que todas as experiências, boas e ruins, foram extremamente necessárias pra formar aquela menina que havia se tornado. Uma menina que ainda brincava de boneca quando encontrava tempo, sem jamais esquecer da real beleza da vida.

♫ Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração…

Decisões são difíceis e parece que não tem jeito, a vida inteira elas vão aparecer em momentos dos menos oportunos, então ela resolveu fazer isso pelo menos do jeito mais digno, de cabeça erguida, peito aberto e as mãos segurando de um lado a coragem, do outro a proteção dos anjos.

E, quando tudo voltou a se encaixar de novo, ela percebeu que não adianta tentar parar as estações do ano, as marés, as horas que passam, o dia que chega. O mundo vai continuar girando e a única saída é acertar o passo com ele e com Deus. Depois disso, não há tempestade que dure mais que o necessário para fazer a menina lembrar de como gosta dos dias de sol.

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